por Renato Muller*

Ao conversar com empresários e analisar os números, surge uma imagem aparentemente confusa, que pode ser quebrada em várias partes desconexas


Não muito tempo atrás, minha filha fazia um trabalho de escola sobre Picasso e o Cubismo. Sua primeira reação, ao ver as pinturas do mestre espanhol, foi fazer cara de ponto de interrogação e dizer: “a moça está toda desmontada nessa pintura”.

O varejo anda bem cubista ultimamente.

Nas últimas semanas, ao conversar com empresários de varejo e analisar os números do setor, a impressão é de estar olhando uma obra de Picasso. Uma imagem à primeira vista confusa, que pode ser quebrada em diversas partes, cada uma aparentemente desconexa da outra, e que revela, aqui e ali, algumas certezas.

Uma olhada nos números mais recentes do IBGE, referentes a março, mostra uma queda moderada nas vendas na comparação anual, mas alguns segmentos tiveram expansão acima de 10%, enquanto outros apresentaram uma queda desse mesmo tamanho. Não existe uma realidade única: os números do IBGE representam, literalmente, a soma e as contradições de várias partes.

Os balanços das empresas publicados recentemente também mostram isso. Uma das principais redes de lojas de departamentos ignorou completamente a crise, ampliando seus lucros em quase 50%, enquanto um dos maiores e-commerces de moda cresceu 41% no primeiro trimestre. Por outro lado, um dos grandes varejistas de eletroeletrônicos teve uma queda de 90% em seus lucros, por conta do aumento das despesas financeiras. Essa linha do balanço, por sinal, vem derrubando os números de inúmeras empresas, especialmente aquelas com dívidas em dólar.

Esse quadro multifacetado do varejo também aparece nas conversas, formais ou informais, com executivos do setor. O Seminário Investimentos NOVAREJO, que realizamos neste mês de maio em São Paulo, reuniu mais de 140 representantes dos mais diversos segmentos do mercado e foi uma oportunidade valiosa de “medir a pulsação” do varejo. Nas conversas duas visões apareceram de forma clara: uma mais esperançosa acreditando que o pior já passou e que teremos uma lenta e progressiva melhora; outra dizendo que o cenário ainda ficará bem mais difícil antes de começar a melhorar.

Às vezes, essas visões diferentes apareciam em uma mesma empresa. O diretor de uma rede disse que no primeiro trimestre as vendas de games e informática despencaram, mas por outro lado o mercado de livros bateu recordes. Uma rede de moda dizia que algumas linhas de produtos iam muito bem, mas que o planejamento estava sendo feito em base mensal. O longo prazo é o fim do mês...

O executivo de um dos principais e-commerces brasileiros, por sua vez, continuava com o pé no acelerador, com um crescimento de vendas digno de startups. Uma rede de alimentação manteve seus planos de expansão mesmo diante do cenário mais bicudo, sabendo que terá que fazer mais força para alcançar os resultados. Mas que eles são possíveis.

Todo esse quadro estranho, cheio de formas esquisitas e imagens sobrepostas, leva a uma conclusão: esqueça o que acontece no mercado e se preocupe com suas operações. No passado, o vento a favor empurrava todo mundo ao crescimento. Hoje, a ventania bate de todos os lados, ás vezes ajudando, mas normalmente jogando contra. Assim, é melhor fazer a lição de casa, rever processos, cuidar da gestão, apertar o cinto, cobrar eficiência, buscar produtividade e agir com cautela. Quem está jogando o jogo do “pé no chão” consegue aproveitar os momentos de vento a favor, enquanto os outros estão vivendo dias complicados.

* Renato Müller é Editor da plataforma NOVAREJO (www.portalnovarejo.com.br)
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