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sexta-feira, 31 de março de 2017

O shopping morreu


O papel dos shoppings centers no cotidiano de seus consumidores vem mudando muito nos últimos anos, e precisa imediatamente se reformular. Muito se fala sobre shoppings e grandes lojas de departamento fechando no exterior, mas há algo acontecendo também no Brasil e que o mercado precisa entender desde já.

Quem é lojista e tem loja, principalmente em shoppings, sabe muito bem que nos últimos anos (considerando até mesmo o período antes da crise), o fluxo de clientes em lojas físicas vem caindo ano após ano, sendo cada vez mais difícil encontrar lucratividade nos negócios na equação entre os custos operacionais, cada vez maiores, e as vendas, cada vez menores, principalmente por conta do forte período de retração de consumo o qual estamos vivendo, só traz uma conclusão: Não está sendo fácil ser varejista.

Por consequência, os shoppings também vêm sofrendo quedas em seu fluxo, e embora não trabalhem a venda de forma direta, a relação com seus locatários vem se tornando cada vez mais complexa e difícil. Num passado não tão distante, grandes empreendimentos, ou shoppings entendidos como “maduros” pelo mercado, podiam cobrar praticamente “o que quisessem”, pois para os varejistas, estar nesses empreendimentos significava vendas garantidas. Hoje esses mesmos empreendimentos estão tendo que rever seus modelos de valores e relacionamento, de maneira a manter marcas e evitar corredores cheios de tapumes.

Muito dos problemas está na maneira como os empreendimentos se relacionam com as marcas. Em uma relação que com o agravamento da crise, se tornou ainda menos cordial, quando deveria ser o oposto, há reclamações de lojistas que vão desde valores cobrados, com aumentos fora da realidade do cenário atual, até mesmo questões que invadem a privacidade dos negócios, com alguns empreendimentos obrigando lojistas a ceder informações que deveriam ser sigilosas, como faturamento ou demais informações de vendas.

Por conta disso, já existem no mercado, e de maneira cada vez mais forte, uniões e movimentos que unam lojistas em interesse comum, contra práticas que julguem abusivas.

E se o shopping não está conseguindo se entender com as pequenas e médias marcas, as grandes marcas começam também a apresentar sinais que está revendo seu papel dentro do shopping. Se antes a presença das grandes marcas eram a salvação dos empreendimentos, atualmente, as grandes marcas de varejo parecem estar se desinteressando em “estar em todos os lugares” e revendo seus modelos de expansão, para lojas cada vez menores e com menores custos, de olho no novo consumidor e assim como em uma lucratividade de seus negócios. Os modelos híbridos de lojas físicas com experiência digital vão permitir cada vez mais uma experiência de compra que necessite de menos espaço e estoque, permitindo lojas menores.

Isso é algo que irá impactar diretamente na questão das lojas âncora, essenciais tanto para os empreendimentos, quanto para os demais lojistas de menor porte, pois significam também fluxo e atratividade.

Outro ponto importante que mostra a necessidade de se rever o papel do shopping no cotidiano, é o fato de que a compra em meios puramente digitais é cada vez mais madura no Brasil. Os consumidores hoje se encontram divididos. Nem todos hoje gostam ou preferem a compra física, comprando em canais que lhe soem mais convenientes, como as compras efetuadas pelos computadores ou celulares. Para muita gente, ir à um shopping, com muitas pessoas ou estacionamentos abarrotados é uma tortura. Comprar online, pelo menos para esses consumidores, é sempre mais conveniente, e confortável.

Por conta de tudo isso, há um novo posicionamento que precisa ser trabalhado. Os shoppings centers, até pelo próprio nome que carregam, que significa literalmente centro de compras, sempre foram considerados como apenas “templos de consumo”. Com a mudança no comportamento de compra dos consumidores provocada pela revolução digital dos últimos anos, o novo papel que precisa ser desenvolvido pelo shopping é o de ser muito mais do que um espaço cheio de lojas, e cada vez mais um espaço que se relaciona com as pessoas, principalmente de sua região ou microrregião.

O Shopping Center, ao menos como termo, está com os dias contados. Os shopping centers precisam se tornar algo que faça sentido diariamente ou o mais “cotidiano” possível, “Everyday” Centers, onde as pessoas possam de fato ter um espaço de convívio e relacionamento, entretenimento, e até mesmo comprar algo quando julgue oportuno ou necessário.

É possível que o papel de centros de compras, sejam delegados aos novos tipos de Outlets, concentrando marcas e ofertas. Os consumidores ainda vêm propósito em se deslocar, mesmo que para uma região mais afastada, para boas ofertas, se de fato forem boas ofertas. Possivelmente o modelo de outlets também tenha impactado nas compras do shopping center nos últimos anos.

Hoje parece que os shoppings, já de olho nesse cenário de se tornar cada vez mais um local de convívio, apostam menos em formatos cabíveis na praça de alimentação, e mais em formatos de restaurantes que promovam melhores experiências, como os restaurantes do tipo “casual dining”, como os das redes Outback, Applebees, Madero, entre outros, além de outros formatos como supermercados em formato empório, padarias, academias e até mesmo laboratórios ou escolas como as escolas de idiomas. Opções que façam sentido no cotidiano das pessoas, e não somente quando estão interessadas em comprar algo.

Não sei quanto tempo irá levar até que o mercado se transforme, mas me parece um caminho irreversível.

Um grande abraço e boas vendas

Caio Camargo
Editor | @falandodevarejo

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