segunda-feira, 18 de junho de 2018

Por que o hard discount avança tão rápido no varejo do mundo?

Na Europa, nos Estados Unidos e agora também na América Latina, o crescimento dos formatos de lojas hard discount tem mostrado impressionante crescimento, sacudindo o setor de supermercados e conveniência.

Originariamente uma concepção alemã, o hard discount é uma operação focada em oferecer os mais baixos preços para produtos alimentares pela combinação de lojas simples, espartanas, com sortimento limitado, praticamente nenhum serviço, limitados meios de pagamentos, predominância de marcas próprias, boa localização e comunicação somente através de volantes e material de ponto de venda.

Marcos Gouvêa de Souza, do Grupo GS& Gouvêa de Souza
O modelo permite variantes, por exemplo, nos meios de pagamentos com aceitação de alguns cartões de crédito, inclusão de marcas nacionais, melhoria na apresentação da loja, comunicação na TV ou rádio e outros elementos mais.

Uma das variantes mais relevantes é a operação do In/Out, conceito pelo qual, semanal ou quinzenalmente, um grupo de produtos, fora do sortimento habitual da loja, é oferecido, com estoque limitado e a preços extremamente competitivos e que geram compra por impulso. Nessa estratégia podem ser oferecidos computadores, roupas, ferramentas, artigos para o lar ou outros itens em condições excepcionais que justificam a compra não planejada.

As principais empresas desse conceito no mundo são as alemãs Aldi e Lidl. E os números impressionam.

Aldi é de 1913 e hoje opera mais de 10.400 lojas em 20 países. Entrou nos Estados Unidos em 1976 e já tem mais de 1.800 lojas por lá, desafiando a meca do varejo com seu formato austero, ainda que tenha promovido uma série de adaptações para atender demandas específicas do consumidor norte-americano em produtos, marcas, serviços, meios de pagamentos e aspectos físicos das lojas.

Nos Estados Unidos, a Aldi lançou uma variante em formato, a Trader Joe’s, hoje com mais de 500 lojas, muito mais palatável ao gosto local, mas sem perder a essência de seu modelo totalmente focado em valor.

Seu mais direto concorrente global é a Lidl, de 1973, também com mais de 10 mil lojas em 30 países, que só entrou nos Estados Unidos em 2017 e tem feito diversas adaptações para atender características específicas daquele mercado.

Outros operadores e mercados

Muitas outras organizações, estimuladas pelas líderes Aldi e Lidl, desenvolveram modelos similares para atender consumidores focados só em preço baixo em outros mercados.

Na América Latina, a Colômbia tem sido um mercado em profunda transformação pelo impacto do hard discount que já soma perto de 1.600 lojas em apenas poucos anos.

Entre os onze maiores varejistas do país, pelos dados da Fenalco, os operadores de hard discount, em apenas seis anos, já conquistaram 6,5% de participação.

O conceito precursor foi a D1, lançada por um grupo local e hoje operado pela Koba, associação entre empresas colombianas e que atua em mais de 560 lojas. É a rede mais próxima do conceito puro de hard discount, inclusive só vendendo com pagamento em dinheiro. Seu faturamento no ano passado teve crescimento de 45,5% sobre o ano anterior.

Outra marca no segmento é a Ara, do grupo português Jeronimo Martins, que o desenvolveu na Armênia e implantou na Colômbia há apenas seis anos e já abriu mais de 150 lojas nesse curto período. Em 2017, teve crescimento de 73,4%.

Os antigos controladores do D1, Grupo Mercaderias, lançaram recentemente outro formato nesse mesmo conceito, a Justo y Bueno, com algumas mudanças na apresentação da loja e com expansão via franquia, mas com a mesma proposta estratégica.

Numa variante do conceito, os controladores da Justo y Bueno, adaptaram a proposta do hard discount puro de alimentos para lançar uma rede de food service, incluindo cafeteria e padaria, a Tostao Pan y Café, que em três anos abriu 285 unidades e deverá chegar ao final de 2018 com 400 unidades.

O que justifica o sucesso do hard discount?

De forma simplista, o fenômeno do crescimento do hard discount em alimentos está na exacerbação do comportamento pragmático e racional de parcela crescente dos consumidores do mundo.

Nos países mais maduros, a maior racionalidade acompanha o envelhecimento da população. Nos países emergentes é a possibilidade de acesso a produtos a preços mais baixos, especialmente em situações de maior volatilidade econômica.

Na lógica da Multipolarização, o vetor valor é aquele que mais tende a crescer dentre os formatos de varejo físico, especialmente para as compras de alimentos, bebidas, produtos de limpeza e higiene pessoal.

Sua confirmação no Brasil está na expansão e desempenho do atacarejo, de marcas como Atacadão, Assaí, Roldão, Maxxi e outros, sendo o formato que mais cresceu nos últimos anos, antes, durante e, com certeza, na pós-recessão pela qual passamos.

Na mesma linha, o Dia, spin off do Carrefour a partir da Espanha, com sua proposta “Soft Discount”, tem obtido forte crescimento, com lojas corporativas e franquias, apoiadas na alta participação das marcas próprias e já opera perto de 1.000 lojas no país.

Mas essa combinação de lojas menores, mais próximas, despojadas, focadas em preço baixo, elevada participação de marcas próprias, características do modelo hard discount, sendo adaptado à nossa realidade operacional, logística e tributária, poderá ser a próxima onda no mercado brasileiro de varejo de lojas físicas.

Vale a pena considerar.

Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral do Grupo GS& Gouvêa de Souza

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