segunda-feira, 1 de abril de 2019

Fisco Digital: moda ou verdadeiras mudanças disruptivas?

Os inúmeros cenários de disrupção, incluindo mudanças regulatórias, sociais, políticas e tecnológicas, estão trazendo novas oportunidades para as empresas, ainda mais para as funções fiscais.

As novas tecnologias no âmbito fiscal apoiarão às exigências da economia digital global e se tornarão um componente estratégico da transformação empresarial. Mas, o que significa exatamente o tão inflacionado termo Transformação Digital para a área fiscal?

Podemos enxergar, no mínimo, três grandes pilares. O primeiro é dado pela nova administração fiscal digital. As autoridades do setor estão aproveitando o poder das novas tecnologias, como Big Data, análise avançada de dados e integração de sistemas, para aumentarem o potencial de administração. O combate a fraudes e uma maior facilidade para o cumprimento de obrigações fiscais aumentam a receita da administração pública, sem depender de uma ampliação da carga tributária formal. Existem vários graus de maturidade da administração fiscal, e o Brasil é, sem dúvidas, um dos países mais avançados nesse contexto.

O segundo pilar vem da onda digital e de suas tecnologias, que estão alterando radicalmente os negócios e os modelos operacionais. Essas novas formas de fazer negócios também estão resultando em novas leis tributárias, que lidam com a criação de valor sem fronteiras jurídicas e geográficas. A função tributária precisa estar pronta para lidar com essa transformação de negócios, já que agora as empresas estão em execução 24x7 e em um contexto delocalizado. A expectativa é que a área fiscal possa contribuir e ser parceira da empresa inteira.

O terceiro pilar é relativo à transformação nas políticas fiscais. As leis tributárias tradicionais não são adequadas para os novos modelos de negócios do mundo digital, que são baseados em tecnologias digitais e transações em mercados virtuais e precisaram de um novo sistema de gerenciamento tributário. Diante desse cenário, serão exigidos relatórios de dados em tempo real e análises cada vez mais sofisticadas. Os métodos digitais ajudarão as autoridades fiscais a promover uma melhor fiscalização, aumentar a base tributária e impedir diminuições de receita de maneira intrusiva e não invasiva.

Todos esses pilares constituem o novo Fisco Digital. Agora que o termo está mais claro, qual é o grau de maturidade das organizações para lidar com essa realidade? De acordo com um estudo recente realizado na Índia pela EY, o grau de maturidade das empresas para enfrentar esse cenário não é dos melhores: 45% das organizações atualmente usam infraestrutura e tecnologias básicas para a gestão fiscal; 24% utilizam soluções fiscais sem integração com sistemas de gestão empresarial ou com interfaces precárias; e 90% dos gestores fiscais declaram que o seu sistema de relatórios e conformidade fiscal não é automatizado ou é apenas parcialmente automatizado.

Esses números mostram claramente a lacuna entre a situação atual e o desejado uso da tecnologia. Atualmente, o uso de software básico, como planilhas ou softwares fiscais independentes e não integrados, é predominante. Além disso, os departamentos fiscais enfrentam uma série de desafios devido à falta de integração com outros departamentos e as formas manuais de trabalho, que promovem ineficiência na gestão de dados e documentos.

Se por um lado a tecnologia é a origem desses desafios para a área fiscal, por outro ela é também a solução. Esses desafios representam oportunidades que alavancam exponencialmente a função fiscal dentro das organizações. Os impostos, por exemplo, estão sendo vistos pela alta gerência como um insumo crítico para tomar decisões fundamentadas e entregar maior valor ao negócio.

Assim, eles passam a encontrar um lugar importante na agenda dos C-Levels. Hoje, as lideranças estão interessadas em participar da tomada de decisões para minimizar os riscos fiscais e investirem para tornar suas funções tributárias mais eficientes e robustas. O foco está em fazer com que as funções tributárias operem em um nível estratégico para fornecer insights de negócios, sem um aumento significativo de recursos. Assim, as organizações buscam a tecnologia para melhorar sua tomada de decisão de negócios, tendo em vista suas pressões de custos e margens.

Ficou claro como um aparente paradoxo na verdade é somente uma questão de ponto de vista? Então, o Fisco Digital pode ser considerado o maior exemplo que temos no Brasil de Transformação Digital, no verdadeiro sentido disruptivo da palavra!

Artigo escrito por Cesar Kazakevicius, head de Tax Solutions da Engineering, companhia global de Tecnologia da Informação especializada em Transformação Digital.
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