Coronavírus: O cabo de guerra entre a economia e a saúde, e quem vai ditar quem vai sair para trabalhar

Coronavírus: O cabo de guerra entre a economia e a saúde, e quem vai ditar quem vai sair para trabalhar


Estamos em meio a um embate entre governantes, entidades de saúde e empresários sobre qual o melhor momento de voltarmos à rotina, sobretudo no que diz respeito ao trabalho.

Já é claro que estar em quarentena é algo que se faz necessário, para que os efeitos letais do vírus sejam minimizados, assim como já é claro que não é possível que essa quarentena não tenha uma data para ser finalizada, sem um desastre econômico para toda a sociedade, sobretudo os mais pobres.

Se todos estão na mesma sintonia, e entendem a importância das duas questões, na hora de colocar as cartas na mesa, e buscarem os melhores caminhos, estão faltando as palavras corretas para não tornar qualquer afirmação uma catástrofe, com alardes e histeria desnecessárias em qualquer um dos campos, seja o da saúde, seja o da economia.

A crise pegou todo mundo em Março. Quase todo mundo recebeu salários integrais em março. Alguns já receberam salários talvez reduzidos, mas ainda uma minoria.

Infelizmente, alguns já sentiram os potenciais efeitos na economia, e já tiveram seus empregos interrompidos, e colocados em um mercado que agora ficou ainda mais restrito de novas oportunidades. A chance de ficar sem emprego ao longo de todo 2020 é enorme.

Fala-se muito do mercado informal e dos autônomos. Muitos estão sem a condição de visitar clientes, sem a condição de vender na rua, sem a condição de aproveitar a circulação de pessoas para vender seu ganha-pão.

Eu acredito que se pensasse somente nas empresas, poderia falar que de acordo com o prolongamento da crise, que se a gente parar por 30 dias, boa parte tentará segurar funcionários e buscar crédito na praça para se manter, mas muitos pequenos vão quebrar. Se pararmos por 60 dias, já começamos a quebrar empresas de médio e até grande porte. Se pararmos 90 dias de paralisia ou mais, eu espero nem tentar imaginar o que seria para a economia.

Mas e a saúde? Quem prega que a gente não deva olhar a questão da saúde está errado e pronto. Mesmo as questões de isolamento vertical, como está sendo pregado, devem ser melhor avaliadas. Infelizmente não tenho os números atuais, mas algumas pesquisas no passado falavam em torno de 20 milhões de famílias que dependiam do sustento dos avós, basicamente a aposentadoria recebida, onde a família compartilhava do mesmo lar. Se a gente mandar os mais jovens, ou mais sadios para trabalhar, o que vai acontecer quando retornarem após o fim do dia para conviver sob o mesmo teto com os idosos, ainda lembrando que são em muitos casos lares de condições precárias em termos de higiene e privacidade, ou seja, impedindo o isolamento parcial.

Sem entrar no mérito do cabo de guerra entre a economia e a saúde, eu quis colocar esse artigo no ar para uma pergunta totalmente aberta, onde eu não tenho uma resposta pronta, até porque acredito que a maioria do que está sendo colocado como hipótese vem se transformando de uma maneira tão rápida que tenho dificuldades de desenhar alguns cenários futuros.

O que vai acontecer quando virarmos Abril e chegarmos no dia 5 ou no dia 10, os tradicionais dias de pagamento para a maioria dos trabalhadores? Até lá, os autônomos e informais antes citados terão que condições de honrar suas dívidas e principalmente de garantir o sustento em suas mesas?

Aqueles que já vão começar a assistir os seus ganhos sendo reduzidos, quais escolhas vão ter?

Parar o mês inteiro de Abril, com o risco de nada receber em Maio, e com cada vez um maior medo de demissão?

Tentar voltar no meio do mês para tentar garantir ao menos meio mês, ou algum ganho em Maio?

E Maio? Será igual?

Acredito (e não me jogue pedras, é apenas minha opinião) que estamos diante de uma “represa social” que talvez não consiga se sustentar até meados de Abril.

Não serão os órgãos de saúde, ou o governo, não importa em qual esfera (municipal, estadual ou federal), que vão conseguir segurar a população, principalmente a mais carente, em casa. A fome e o instinto de sobrevivência poderão ser maiores que a prudência.

Portanto, não acredito que será o governo ou a saúde quem irá controlar a quarentena da população, mas será ela mesmo que irá decidir esse retorno.

Fala-se que algo nessa linha, com o aumento do desemprego e a falta de renda das famílias mais carentes, possa incidir em um aumento da violência, como roubos e saques. Por hora, eu vou me abster dessa linha de raciocínio e me focar mais nas questões entre empregos e salários, embora seja um cenário bastante plausível e com a capacidade de concretização relativa à crise que podemos assistir nos próximos meses.

O mercado sinaliza uma volta, ao menos gradual na segunda quinzena de Abril, tentando retomar o ritmo nesse período de olho em tentar não perder completamente o Dia das Mães, uma das datas mais importantes para muitos segmentos.

Antes de críticas, não me coloco aqui como dono de nenhuma verdade, e estou tentando colocar aqui de forma compilada apenas os fatos que venho absorvendo ao longo dos acontecimentos dos últimos dias.

Uma das frases que mais escutei esses dias, e que concordo, é que não importa se você se coloca de algum lado das acaloradas discussões entre saúde, economia e política, ou o que defende nesse momento, todo mundo quer de fato, que tudo volte ao que estava da maneira mais rápida e menos impactante possível.

E que tomara que assim seja.


Caio Camargo
Editor | falandodevarejo.com
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