Por Claudia Bittencourt*

No mundo atual, a correria do dia a dia, as inovações tecnológicas, e toda a profusão de informações que somos impactados diariamente, acabam por nos fazer olhar para o passado e tentar resgatar algo que faça sentido ou que nos conforte.


Isso já se refletiu em muitas situações como a onda retrô que invadiu o varejo e a prestação de serviços, e nas as empresas que optam por criar uma conexão afetiva e não apenas comercial com seus clientes, dando uma sensação de acolhimento.

Isso acontece também no mundo corporativo, no qual as lideranças das empresas também sofrem todos esses impactos do mundo moderno e ainda tem que lidar com a alta expectativa de seus liderados de que solucionem todos os seus problemas no trabalho.

Esse processo de dependência nos remete à infância em que nossos pais nos diziam o que fazer (e o que não fazer) e como. Nessa fase da vida, recebemos ordens e acatamos. Estamos condicionados à autoridade que os pais têm sobre nós.

Na adolescência, começamos a colocar em prova esse modelo, desafiando as ordens e questionando o que nos é imposto.

Com o passar do tempo, passamos a perceber que as relações podem ser de troca, de compartilhamento. Quando procuramos um amigo para falar de algo que nos incomoda, estamos buscando troca de experiências e conforto. Confiamos nessa pessoa e por isso, compartilhamos nossas angustias. E essa confiança nada tem a ver com autoridade.

Na fase adulta, no trabalho, começamos a perceber pessoas que nos inspiram, aquelas que sabemos que podem nos conduzir para um caminho de construção e de conhecimento. Começamos a identificar pessoas que tem perfil de liderança. Nessa fase fica claro que autoridade nada tem a ver com inspiração e confiança.

Se tivermos passado por esse processo evolutivo que traz a maturidade necessária para lidar com as diferentes responsabilidades e atribuições da vida adulta, teremos a capacidade de lidar com frustrações e incertezas, sabendo que as escolhas que fazemos tem impacto em nossas vidas e principalmente aceitando que não sabemos de tudo.

Ou seja, teremos passado por esse processo evolutivo com louvor.

Porém o que vemos hoje são profissionais em idade madura – e aqui incluo tanto líderes quanto liderados – que ficaram presos ao estágio inicial da evolução. Confundem a autoridade com liderança e buscam que o outro traga a soluções para seus problemas. A exemplo de um funcionário que espera que seu gestor tenha todas as respostas para todas as questões que envolvam sua atividade e a empresa. Ou de líderes que se sentem oprimidos por acreditarem que têm a obrigação de solucionar e resolver tudo – caso contrário sua função será colocada em xeque.

E é aí que entra o aprendizado que absorvemos da Teoria da Evolução de Darwin, quando ele trata da seleção natural com a máxima: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

Fica clara a relação da teoria com as empresas.

Hoje é cada vez mais premente a necessidade de adaptação para sobrevivência tanto de profissionais quanto de empresas. Não cabe mais confundir autoridade com liderança.

Uma pessoa com autoridade – ou seja, que ocupa altos cargos – geralmente recebe uma dose de crédito de confiança, pois acredita-se que se chegou até lá é porque tem competências que a levaram a ocupar essa função. Porém com o passar do tempo, dois caminhos podem acontecer. Seus liderados podem reconhecer além da competência técnica que o colocou no cargo – um conjunto de repertório, conhecimento e experiência – e também a liderança exercida – ou seja, escuta ativa, compartilhamento, inspiração - ou, passam a questionar sua posição justamente por não liderar e apenas ordenar.

O grande desafio nesses dois casos é distinguir trabalho técnico do adaptativo. Devido às mudanças constantes do ambiente, não temos respostas para tudo o tempo todo. E precisamos ser mais adaptativos, assim como na a natureza, que os animais precisam mudar conforme a alteração do seu ambiente para sobreviver.

Uma liderança adaptativa exige desenvolvimento de competências, abertura, adaptação. É mobilizar as pessoas mesmo diante de desafios que mudam a toda hora. Não está vinculada a status, poder ou autoridade

Para exercer esse papel de líder adaptativo, é preciso saber que você nem sempre vai ser o propagador de boas notícias. Muitas vezes será você quem dirá para as pessoas que elas terão que mudar, e isso pode ter a representação de perda de algo. Isso deve ser encarado com naturalidade, pois deve-se conduzir os liderados a seguir em frente.

Apesar de reconhecer “as dores” dos liderados, para efetivamente exercer seu papel de líder adaptativo, é importante focar no que se ganha com a mudança, os benefícios, e mobilizar as equipes frente às perspectivas positivas futuras.

Nesse processo, cabe aprender com a mãe natureza, no seu processo de seleção natural. Ela sabiamente escolhe num cenário de mudanças, o que é necessário manter, o que deve ser descartado, e o que precisa ser desenvolvido. Os líderes devem da mesma forma, escolher também num cenário de mudanças, o que da cultura deve ser mantida, a sua essência, o que deve ser descartado, o que não cabe mais no cenário em que está inserido, e o que deve ser desenvolvido, já que precisa se preparar para o novo ambiente.

E você? Em que estágio evolutivo está?

Claudia Bittencourt é sócia e diretora geral do Grupo BITTENCOURT.
Artigo inspirado no livro de Ronald Heifetz, Liderança Adaptativa
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